terça-feira, 18 de outubro de 2016

José de Alencar - Cinco Minutos - 06 / 10







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VI


Eis o que ela me dizia:
Devo-te uma explicação, meu amigo.
Esta explicação é a história da minha vida, breve história, da qual escreveste a mais bela página.
Cinco meses antes do nosso primeiro encontro completava eu os meus dezesseis anos, a vida começava a sorrir-me.
A educação rigorosa que me dera minha mãe, me conservara menina até àquela idade, e foi só quando ela julgou dever correr o véu que ocultava o mundo aos meus olhos, que eu perdi as minhas idéias de infância e as minhas inocentes ilusões.
A primeira vez que fui a um baile, fiquei deslumbrada no meio daquele turbilhão de cavalheiros e damas, que girava em torno de mim sob uma atmosfera de luz, de música, de perfumes.
Tudo me causava admiração; esse abandono com que as mulheres se entregavam ao seu par de valsa, esse sorriso constante e sem expressão que uma moça parece tomar na porta da entrada para só deixá-lo à saída, esses galanteios sempre os mesmos e sempre sobre um tema banal, ao passo que me excitavam a curiosidade, faziam desvanecer o entusiasmo com que tinha acolhido a notícia que minha mãe me dera da minha entrada nos salões.
“Estavas nesse baile; fia o primeira vez que te vi. Reparei que nessa multidão alegre e ruidosa tu só não dançavas nem galanteavas, e passeavas pelo salão como um espectador mudo e indiferente, ou talvez como um homem que procurava uma mulher e só via toilettes. Compreendi-te, e durante muito tempo segui-te com os olhos; ainda hoje me lembro dos teus menores gestos, da expressão do teu rosto e do sorriso de fina ironia que às vezes fugia-te pelos lábios. Foi a única recordação que trouxe dessa noite, e quando adormeci, os meus doces sonhos de infância, que, apesar do baile, vieram de novo pousar nas alvas cortinas de meu leito, apenas foram interrompidos um instante pela tua imagem, que me sorria. No dia seguinte reatei o fio de minha existência, feliz, tranqüila e descuidosa, como costuma ser a existência de uma moça aos dezesseis anos. Algum tempo depois fui a outros bailes e ao teatro, porque minha mãe, que guardara a minha infância, como um avaro esconde o seu tesouro, queria fazer brilhar a minha mocidade. Quando cedia ao seu pedido e me ia aprontar, enquanto preparava o meu simples traje, murmurava: — Talvez ele esteja. E esta lembrança, não só me tornava alegre, mas fazia com que procurasse parecer bela, para te merecer um primeiro olhar. Ultimamente era eu quem, cedendo a um sentimento que não sabia explicar, pedia a minha mãe para irmos a um divertimento, só na esperança de encontrar-te. Nem suspeitavas então que, entre todos aqueles vultos indiferentes, havia um olhar que te seguia sempre e um coração que adivinhava os teus pensamentos, que se expandia quando te via sorrir, e contraía-se quando uma sombra de melancolia anuviava o teu semblante.
Se pronunciavam o teu nome diante de mim, corava e na minha perturbação julgava que tinham lido esse nome nos meus olhos ou dentro de minh'alma, onde eu bem sabia que ele estava escrito.
E entretanto, nem sequer ainda me tinhas visto; se teus olhos haviam passado alguma vez por mim, tinha sido em um desses momentos em que a luz se volta para o íntimo, e se olha, mas não se vê.
Consolava-me, porém, que algum dia o acaso nos reuniria, e então não sei o que me dizia que era impossível não me amares.
O acaso deu-se, mas quando a minha existência já se tinha completamente transformado.
Ao sair de um desses bailes, apanhei uma pequena constipação, de que não fiz caso. Minha mãe teimava que eu estava doente, e eu achava-me apenas um pouco pálida e sentia às vezes um ligeiro calafrio, que eu curava, sentando-me ao piano e tocando alguma música de bravura.
Um dia, porém, achei-me mais abatida; tinha as mãos e os lábios ardentes, a respiração era difícil, e ao menor esforço umedecia-se-me a pele com uma transpiração que me parecia gelada.
Atirei-me sobre um sofá, e, com a cabeça recostada ao colo de minha mãe, caí em um letargo que não sei quanto tempo durou. Lembro-me somente que, no momento mesmo em que ia despertando dessa sonolência que se apoderara de mim, vi minha mãe sentada à cabeceira de meu leito chorando, e um homem dizia-lhe algumas palavras de consolo, que eu ouvi como em sonho:
— Não desespere, minha senhora; a ciência não é infalível, nem os meus diagnósticos são sentenças irrevogáveis. Pode ser que a natureza e as viagens a salvem. Mas é preciso não perder tempo.
O homem partiu.
Não tinha compreendido as suas palavras, às quais não ligava o menor sentido.
Passado um instante, ergui tranqüilamente os olhos para minha mãe, que escondeu o lenço e tragou em silêncio o seu pranto e os seus soluços.
— Tu choras, mamãe?
— Não, minha filha... não... não é nada.
— Mas tu estás com os olhos cheios de lágrimas!... disse eu assustada.
— Ah! sim!... uma notícia triste que me contaram há pouco... sobre uma pessoa... que tu não conheces.
— Quem é este senhor que estava aqui?
— É o Dr. Valadão, que te veio visitar.
— Então eu estou muito doente, boa mamãe?
— Não, minha filha, ele assegurou que não tens nada; é apenas um incômodo nervoso.
E minha querida mãe, não podendo mais conter as lágrimas que lhe saltavam dos olhos, fugiu pretextando uma ordem a dar.
Então, à medida que a minha inteligência ia saindo do letargo, comecei a refletir sobre o que se tinha passado.
Aquele desmaio tão longo, aquelas palavras que eu ouvira ainda entre as névoas de um sono agitado, as lágrimas de minha mãe e a sua repentina aflição, o tom condoído com que o médico lhe falara...
Um raio de luz esclareceu de repente o meu espírito.
“Estava desenganada.
“O poder da ciência, o olhar profundo, seguro, infalível, desse homem que lê no corpo humano como em um livro aberto, tinha visto no meu seio um átomo imperceptível.
E esse átomo, era o verme que devia destruir as fontes da vida, apesar dos meus dezesseis anos, apesar de minha organização, apesar de minha beleza e dos meus sonhos de felicidade!
Aqui terminava a primeira folha, que eu acabei de ler entre as lágrimas que me inundavam as faces e caíam sobre o papel.
Era este o segredo de sua estranha reserva; era a razão por que me fugia, por que se ocultava, por que ainda na véspera dizia que se tinha imposto o sacrifício de nunca ser amada por mim.
Que sublime abnegação, minha prima! E, como eu me sentia pequeno e mesquinho à vista desse amor tão nobre!

       





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