terça-feira, 9 de agosto de 2016

José de Alencar - Cinco Minutos - 08 / 10







Conteúdo educacional para Ensino Fundamental, Educação Infantil, Poesia, Idiomas,  Livros em Domínio Público, PDF para download, Letras de Músicas, Áudio Livros (Audiobooks) e muito mais em:





VIII


Devorei toda esta carta de um lanço de olhos.
Minha vista corria sobre o papel como o meu pensamento, sem parar, sem hesitar, poderia até dizer sem respirar.
Quando acabei de ler, só tinha um desejo: era o de ir ajoelhar-me a seus pés, e receber como uma bênção do céu esse amor sublime e santo.
Como sua mãe, lutaria contra o destino, cercá-la-ia de tanto afeto e de tanta adoração, tornaria sua vida tão bela e tão tranqüila, prenderia tanto sua alma à terra, que lhe seria impossível deixá-la.
Criaria para ela com o meu coração um mundo novo, sem as misérias e as lágrimas deste mundo em que vivemos; um mundo só de ventura, onde a dor e o sofrimento não pudessem penetrar.
Pensava que devia haver no universo algum lugar desconhecido, algum canto de terra ainda puro do hálito do homem, onde a natureza virgem conservaria o perfume dos primeiros tempos da criação e o contato das mãos de Deus quando a formara.
Aí era impossível que o ar não desse vida; que o raio do sol não viesse impregnado de um átomo de fogo celeste; que a água, as árvores, a terra, cheia de tanta seiva e de tanto vigor, não inoculassem na criatura essa vitalidade poderosa da natureza no seu primitivo esplendor.
Iríamos, pois, a uma dessas solidões desconhecidas; o mundo abria-se diante de nós, e eu sentia-me com bastante força e bastante coragem para levar o meu tesouro além dos ma- res e das montanhas, até achar um retiro onde esconder a nossa felicidade.
Nesses desertos, tão vastos, tão extensos, não haveria sequer vida bastante para duas criaturas que apenas pediam um palmo de terra e um sopro de ar, a fim de poderem elevar a Deus, como uma prece constante, o seu amor tão puro?
Ela dava-me vinte e quatro horas para refletir, e eu não queria nem um minuto, nem um segundo.
Que me importavam o meu futuro e a minha existência se eu os sacrificaria de bom grado para dar-lhe mais um dia de vida?
Todas estas idéias, minha prima, cruzavam-se no meu espírito, rápidas e confusas, enquanto eu fechava na caixinha de pau-cetim os objetos preciosos que ela encerrava, copiava na minha carteira a sua morada, escrita no fim da carta, e atravessava o espaço que me separava da porta do hotel.
Aí encontrei o criado da véspera.
— A que horas parte a barca da Estrela?
— Ao meio-dia. Eram onze horas; no espaço de uma hora eu faria as quatro léguas que me separavam
daquele porto.
Lancei os olhos em torno de mim com uma espécie de desvairo
Não tinha um trono, como Ricardo III, para oferecer em troca de um cavalo; mas tinha
a realeza do nosso século, tinha dinheiro. A dois passos da porta do hotel estava um cavalo, que o seu dono tinha pela rédea.
— Compro-lhe este cavalo, disse eu caminhando para ele, sem mesmo perder tempo em cumprimentá-lo.
— Não pretendia vendê-lo, respondeu-me o homem cortesmente; mas, se o senhor está disposto a dar o preço que ele vale...
— Não questiono sobre o preço; compro-lhe o cavalo arreado como está. O sujeito olhou-me admirado; porque, a falar a verdade, os seus arreios nada valiam. Quanto a mim, já tinha-lhe tomado as rédeas da mão; e, sentado no selim, esperava
que me dissesse quanto tinha de pagar-lhe.
— Não repare, fiz uma aposta e preciso de um cavalo para ganhá-la.
Isto deu-lhe a compreender a singularidade do meu ato e a pressa que eu tinha; recebeu sorrindo o preço do seu animal, e disse, saudando-me com a mão, de longe, porque já eu dobrava a rua:
— Estimo que ganhe a aposta; o animal é excelente! Na verdade era uma aposta que eu tinha feito comigo mesmo, ou antes com a minha
razão, a qual me dizia que era impossível apanhar a barca, e que eu fazia uma extravagância sem necessidade, pois bastava ter paciência por vinte e quatro horas.
Mas o amor não compreende esses cálculos e esses raciocínios próprios da fraqueza humana; criado com uma partícula do fogo divino, ele eleva o homem acima da terra, desprende-o da argila que o envolve, e dá-lhe força para dominar todos os obstáculos, para querer o impossível.
Esperar tranqüilamente um dia para ir dizer-lhe que eu amava e queria amá-la com todo o culto e admiração que me inspirava a sua nobre abnegação, me parecia quase uma in-fâmia.
Seria dizer-lhe que tinha refletido friamente, que tinha pesado todos os prós e os contras do passo que ia dar, que havia calculado como um egoísta a felicidade que ela me oferecia.
Não só a minha alma se revoltava contra esta idéia; mas parecia-me que ela, com a sua extrema delicadeza de sentimento, embora não se queixasse, sentiria ver-se o objeto de um cálculo e o alvo de um projeto de futuro.
A minha viagem foi uma corrida louca, desvairada, delirante. Novo Mazzepa, passava por entre a cerração da manhã, que cobria os píncaros da serrania, como uma sombra que fugia rápida e veloz.
Dir-se-ia que alguma rocha colocada em um dos cabeços da montanha tinha-se desprendido de seu alvéolo secular, e, precipitando-se com todo o peso, rolava surdamente pelas encostas.
O galopar do meu cavalo formava um único som, que ia reboando pelas grutas e cavernas, e confundia-se com o rumor das torrentes.
As árvores, cercadas de névoa, fugiam diante de mim como fantasmas; o chão desaparecia sob os pés do animal; às vezes parecia-me que a terra ia faltar-me e que o cavalo e cavaleiro rolavam por algum desses abismos imensos e profundos, que devem ter servido de túmulos titânicos.
Mas, de repente, entre uma aberta de nevoeiro, eu via a linha azulada do mar, e fechava os olhos e atirava-me sobre o meu cavalo, gritando-lhe ao ouvido a palavra de Byron: — Away!
Ele parecia entender-me, e precipitava essa corrida desesperada; não galopava, voava; seus pés, como impelidos por quatro molas de aço, nem tocavam a terra.
Assim, minha prima, devorando o espaço e a distância, foi ele, o nobre animal, abater-se a alguns passos apenas da praia; a coragem e as forças só o tinham abandonado com a vida, e no termo da viagem.
Em pé, ainda sobre o cadáver desse companheiro leal, via a coisa de uma milha o vapor que singrava ligeiramente para a cidade.
Aí fiquei perto de uma hora, seguindo com os olhos essa barca que a conduzia; e quando o casco desapareceu, olhei os frocos de fumaça do vapor, que se enovelaram no ar, e que o vento desfazia a pouco e pouco.
Por fim, quando tudo desapareceu, e que nada me falava dela, olhei ainda o mar por onde havia passado e o horizonte que a ocultava aos meus olhos.
O sol dardejava raios de fogo; mas eu bem me importava com o sol; todo o meu espírito e os meus sentidos se concentravam em um único pensamento; vê-la, vê-la em uma hora, em um momento, se possível fosse.
Um velho pescador arrastava nesse momento a sua canoa à praia.
Aproximei-me e disse-lhe:
— Meu amigo, preciso ir à cidade, perdi a barca, e desejava que você me conduzisse na sua canoa.
— Mas se eu agora mesmo é que chego!
— Não importa; pagarei o seu trabalho, também o incômodo que isto lhe causa.
— Não posso, não, senhor, não é lá pela paga que eu digo que estou chegando; mas é que passar a noite no mar sem dormir não é lá das melhores coisas; e estou caindo de sono.
— Escute, meu amigo...
— Não se canse, senhor; quando eu digo não, é não; e está dito. E o velho continuou a arrastar a sua canoa.
— Bem, não falemos mais nisto; mas conversemos.
— Lá isto como o senhor quiser.
— A sua pesca rende-lhe bastante?
— Qual! rende nada!...
— Ora diga-me! Se houvesse um meio de fazer-lhe ganhar em um só dia o que pode ganhar em um mês, não enjeitaria decerto?
— Isto é coisa que se pergunte?
— Quando mesmo fosse preciso embarcar depois de passar uma noite em claro no mar?
— Ainda que devesse remar três dias com três noites, sem dormir nem comer.
— Nesse caso, meu amigo, prepara-se, que vai ganhar o seu mês de pescaria; leve-me à cidade.
— Ah! isto já é outro falar; por que não disse logo?...
— Era preciso explicar-me?!
— Bem diz o ditado que é falando que a gente se entende.
— Assim, é negócio decidido. Vamos embarcar?
— Com licença; preciso de um instantinho para prevenir a mulher; mas é um passo lá e outro cá.
— Olhe, não se demore; tenho muita pressa.
— É em um fechar de olhos, disse ele correndo na direção da vila. Mal tinha feito vinte passos, parou, hesitou, e por fim voltou lentamente pelo mesmo caminho.
Eu tremia; julgava que se tinha arrependido, que vinha apresentar-me alguma nova dificuldade. Chegou-se para mim de olhos baixos e coçando a cabeça.
— O que temos, meu amigo? perguntei-lhe com uma voz que esforçava por tornar calma.
— É que... o senhor disse que pagava um mês...
— Decerto; e, se duvida, disse levando a mão ao bolso. Não, senhor, Deus me defenda de desconfiar do senhor! Mas é que... sim, não vê,
o mês agora tem menos um dia que os outros!
Não pude deixar de sorrir-me do temor do velho; nós estávamos com efeito, no mês de fevereiro.
— Não se importe com isto; está entendido que, quando eu digo um mês, é um mês de trinta e um dias; os outros são meses aleijados, e não se contam.
— É isso mesmo, disse o velho rindo-se da minha idéia; assim como quem diz, um homem sem um braço. Ah!... ah!...
E continuou a rir-se, tomou o caminho de casa e desapareceu.
Quanto a mim, estava tão contente com a idéia de chegar à cidade em algumas horas, que não pude deixar também de rir-me do caráter original do pescador.
Conto-lhe estas cenas e as outras que se lhe seguiram com todas as suas circunstâncias por duas razões, minha prima.
A primeira é porque desejo que compreenda bem o drama simples que me propus traçar-lhe; a segunda é porque tenho tantas vezes repassado na memória as menores particularidades dessa história, tenho ligado de tal maneira o meu pensamento a essas reminiscências, que não me animo a destacar delas a mais insignificante circunstância; parece-me que se o fizesse, separaria uma parcela de minha vida.
Depois de duas horas de espera e de impaciência, embarquei nessa casquinha de noz, que saltou sobre as ondas, impelida pelo braço ainda forte e ágil do velho pescador.
Antes de partir fiz enterrar o meu pobre cavalo; não podia deixar assim exposto às aves de rapina o corpo desse nobre animal, que eu tinha roubado à afeição do seu dono, para imolá-lo à satisfação de um capricho meu.
Talvez lhe pareça isto uma puerilidade; mas a senhora é mulher, minha prima, e deve saber que, quando se ama como eu amava, tem-se o coração tão cheio de afeição, que espalha uma atmosfera de sentimento em torno de nós, e inunda até os objetos inanimados, quanto mais as criaturas, ainda irracionais, que um momento se ligaram à nossa existência para realização de um desejo.

Links:


Sanderlei Silveira (Website)

Conheça seu Estado - História e Geografia

Poesia em Português, Inglês, Espanhol e Francês

Áudio Livro

Livros Online

Obra completa de Machado de Assis

Billboard Hot 100 - Letras de Músicas | Song Lyrics - Songtext - Testo Canzone - Paroles Musique - 歌曲歌词 - 歌詞 - كلمات الاغنية - песни Текст

Educação Infantil - Vídeos, Jogos e Atividades Educativas para crianças de 4 à 11 anos

Língua Portuguesa e Atualidades

Arte e Estética

Santa Catarina - Conheça seu Estado

São Paulo - Conheça seu Estado

Paraná - Conheça seu Estado

Mato Grosso do Sul - Conheça seu Estado

Bíblia Online

O Diário de Anne Frank

Macunaíma - Mário de Andrade

Dom Casmurro - Machado de Assis

Quincas Borba - Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

Esaú e Jacó - Machado de Assis

Mein Kampf - Adolf Hitler

Cinco Minutos - José de Alencar

O Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

História em 1 Minuto

TOP 15: PDF para Download - Domínio Público


Livros em PDF para Download

O Diário de Anne Frank - Download PDF Livro Online

Camilo Castelo Branco - Livros em PDF para Download

Castro Alves - Livros em PDF para Download

Eça de Queiros - Livros em PDF para Download

Euclides da Cunha - Livros em PDF para Download

Fernando Pessoa - Livros em PDF para Download

Jane Austen - Livros em PDF para Download

José de Alencar - Livros em PDF para Download

Machado de Assis - Livros em PDF para Download

Virginia Woolf - Livros em PDF para Download

William Shakespeare - Livros em PDF para Download

Mein Kampf - Adolf Hitler - Download PDF Livro Online

O Alienista - Machado de Assis - PDF Download Livro Online

Macunaíma - Mário de Andrade - PDF Download Livro Online

Esaú e Jacó - Machado de Assis - PDF Download Livro Online

Dom Casmurro - Machado de Assis - PDF Download Livro Online

Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis - PDF Download Livro Online

Quincas Borba - Machado de Assis - PDF Download Livro Online

TOP 10: Billboard - Letras de Músicas - Song Lyrics - Songtext


One Dance - Drake - Song Lyrics

Purple Lamborghini - Skrillex & Rick Ross

Broccoli - D.R.A.M. - Song Lyrics

Don't Mind - Kent Jones - Song Lyrics

Luv - Tory Lanez - Song Lyrics

Can't Stop The Feeling! - Justin Timberlake - Song Lyrics

This Is What You Came - Calvin Harris Ft. Rihanna - Song Lyrics

Sorry - Justin Bieber - Song Lyrics

Sit Still, Look Pretty - Daya - Song Lyrics

Fix - Chris Lane - Song Lyrics

With You Tonight / Hasta El Amanecer - Nicky Jam - Song Lyrics

Hit Or Miss - Jacob Sartorius - Song Lyrics

TOP 60:


As festas populares no estado de São Paulo

Assalto - Carlos Drummond de Andrade

Atividades extrativistas do estado de São Paulo - SP

As festas populares no estado do Paraná - PR

Áreas de preservação no estado de São Paulo - SP

Gonçalves Dias - Marabá - Poesia

O tropeirismo no estado do Paraná - PR

Bacias hidrográficas do estado de São Paulo - SP

Atividades extrativistas no Paraná - PR

Os imigrantes no século XIX e XX no estado do Paraná - PR

Atividades extrativistas do Mato Grosso do Sul - MS

As atividades econômicas do estado de São Paulo - SP

As festas populares do estado de Mato Grosso do Sul - MS

Biomas brasileiros - SC

Atividades extrativistas de Santa Catarina - SC

Religião – Idade Antiga (História em 1 Minuto)

A população africana e a escravidão no Paraná - PR

Os imigrantes no estado de Santa Catarina no século XX - SC

Áreas de preservação Ambiental no estado de Santa Catarina - SC

As comunidades quilombolas no Mato Grosso do Sul - MS

O relevo do estado de São Paulo - SP

As atividades econômicas do estado do Paraná - PR

Áreas de preservação Ambiental no estado de Mato Grosso do Sul - MS

Memórias Póstumas de Brás Cubas - Capítulo 160 - Das Negativas (Machado de Assis)

Os biomas no estado do Mato Grosso do Sul - MS

A urbanização no estado de São Paulo no início do século XX - SP

A organização do espaço geográfico brasileiro

A poluição do rio Iguaçu (maior rio do Paraná) - PR

Clima e relevo do estado do Paraná - PR

As atividades econômicas no estado de Santa Catarina - SC

Áreas de preservação do estado do Paraná - PR

O Humanitismo - Capítulo 117 - Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

As comunidades quilombolas no estado de Santa Catarina - SC

Vegetação nativa do estado de Santa Catarina - SC

As comunidades quilombolas no estado de São Paulo na atualidade - SP

Os índios Xetá no estado do Paraná - PR

Bacias hidrográficas de Santa Catarina - SC

Rio Iguaçu e sua importancia na historia do Paraná - PR

Machado de Assis - Esaú e Jacó - Capítulo 60 - Manhã de 15

A ocupação e o povoamento do Mato Grosso do Sul - MS

Clima e relevo no estado de Santa Catarina - SC

A formação da cultura de Santa Catarina - SC

Capítulo 17 - Ursa Maior - Mário de Andrade - Macunaíma

Luís Vaz de Camões - Soneto 57 - De Vos me Aparto, oh Vida! Em Tal Mudança

Bacias hidrográficas do Mato Grosso do Sul - MS

Gonçalves Dias - Canção do exílio - Poesia

As comunidades quilombolas no estado do Paraná - PR

A imigração europeia no estado do Paraná - PR

Elizabeth Barrett Browning - Sonnet 43 - How Do I Love Thee?

Biomas brasileiros - PR

Relevo do estado de Mato Grosso do Sul - MS

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas

Luís Vaz de Camões - Soneto 43 - Como Quando do Mar Tempestuoso

A população indígena na região do estado de Santa Catarina - SC

Luís Vaz de Camões - Soneto 45 - Leda Serenidade Deleitosa

Norte Catarinense (Mesorregião) - SC

Top 10 - Prédios mais altos do mundo

A arte como registro histórico

A escultura, depois de Alexander Calder

Atividades Educativas Ensino Fundamental - Aprendendo sobre o Dinheiro

Os símbolos do estado do Rio de Janeiro - RJ

TOP 10: BLOG


História em 1 Minuto

Santa Catarina - Conheça seu Estado (História e Geografia)

São Paulo - Conheça seu Estado (História e Geografia)

Paraná - Conheça seu Estado (História e Geografia)

Mato Grosso do Sul - Conheça seu Estado (História e Geografia)

Rio de Janeiro - Conheça seu Estado (História e Geografia)

Língua Portuguesa, Arte e Literatura

Letras de Músicas - Sanderlei

Poesia - Sanderlei Silveira

Áudio Livro - Sanderlei



Nenhum comentário:

Postar um comentário