sábado, 4 de junho de 2016

Machado de Assis - Casa Velha - Capítulo 09


No dia 20 achei, com efeito, tudo mudado, Lalau, suspeitosa e triste, Félix retraído e seco. Este veio contarme o que se passara, e acabou dizendo que o estado moral da menina pedia a minha intervenção. Pela sua parte não queria mudar de maneiras com ela, para não entreter um sentimento condenado; não ousava também darlhe notícia da situação nova. Mas eu podia fazêlo, sem constrangimento, e com vantagem para todos.




Machado de Assis - Casa Velha - Capítulo 09


No dia 20 achei, com efeito, tudo mudado, Lalau, suspeitosa e triste, Félix retraído e seco. Este veio contarme o que se passara, e acabou dizendo que o estado moral da menina pedia a minha intervenção. Pela sua parte não queria mudar de maneiras com ela, para não entreter um sentimento condenado; não ousava também darlhe notícia da situação nova. Mas eu podia fazêlo, sem constrangimento, e com vantagem para todos.
—  Não sei, disse eu depois de alguns instantes de reflexão; não sei... Sua mãe?
—  Mamãe está perfeitamente bem com ela; parece até que a trata com muito mais ternura. Não lhe dizia eu? Mamãe é muito amiga dela.
—  Não lhe terá dito nada?
—  Creio que não.
E depois de algum silêncio:
—  Nem lho diria ela mesma. Há confissões difíceis de fazer a outros, e impossíveis a ela; digo fazêlas diretamente à pessoa interessada. Vamos lá; tirenos desta situação duvidosa.
—  Bem; verei. Não afirmo nada; verei.
Estávamos na sala dos livros; Lalau apareceu à porta. Parou alguns instantes, depois veio afoitamente a mim, expansiva e ruidosa, mas de propósito, por pirraça; tanto que não me falava com a atenção em mim, mas dispersa, e olhando de modo que pudesse apanhar os gestos do rapaz. Este não dizia nada, olhava para os livros. Lalau perguntoume o que era feito de mim, por onde tinha andado, se era ingrato para ela, se a esquecia; afirmando que também estava disposta a esquecerme, e já tinha um padre em vista, um cônego, tabaquento, muito feio, cabeça grande. Tudo isso era dito por modo que me doía, e devia doer a ela também; certo é que ele não se demorou muito na sala; foi até a janela, por alguns instantes; depois disseme que ia ver os cavalos e saiu.
Lalau não pôde mais conterse; logo que ele saiu, deixouse cair numa cadeira, ao canto da sala, e rompeu em lágrimas. A explosão atordooume, corri para ela, pegueilhe nas mãos, ela pegou nas minhas, disse que era desgraçada, que ninguém mais lhe queria, que tinha padecido muito naquele dia, muito, muito... Nunca falamos do sentimento que a acabrunhava agora; mas não foi preciso começar por nenhuma confissão.
—  Não compreendo nada, dizia ela; sei só que sofro, que choro, e que me vou embora. Por quê? Sabe que há?
Não lhe dei resposta.
—  Ninguém sabe nada, naturalmente, continuou ela.
Quem sabe tudo já lá vai caminhando para a roça. Devia ser assim mesmo; eu não valho nada, não sou nada, não tenho avó baronesa, sou uma agregadazinha... Mas então por que enganarme tanto tempo? Para caçoar comigo?
E chorava outra vez, por mais que eu defronte dela, em pé, lhe dissesse que não fizesse barulho, que podiam ouvir; ela, porém, durante alguns minutos não atendia a nada. Quando cansou de chorar, e enxugou os olhos, estava realmente digna de lástima. A expressão agora era só de dor e de abatimento; desaparecera a indignação da moça obscura que se vê preterida por outra de melhor posição. Senteime ao lado dela, disselhe que era preciso ter paciência, que os desgostos eram a parte principal da vida; os prazeres eram a exceção; disselhe tudo o que a religião lhe poderia lembrar para obter que se resignasse. Lalau ouvia com os olhos parados, ou olhando vagamente; às vezes interrompia com um sorriso. Urgia contarlhe tudo; mas aqui confesso que não achava palavras. Era grave a notícia; o efeito devia ser violento, porque, conquanto ela cuidasse estar abandonada por outra, a esperança lá se aninharia nalgum recanto do coração, e nada está perdido enquanto o coração espera alguma coisa. Mas a notícia da filiação era decisiva.
Não sabendo como dizêlo, prossegui na minha exortação vaga. Ela, que a princípio ouvia sem interesse, olhou de repente para mim, e perguntoume se realmente estava tudo perdido. Vendo que lhe não dizia nada:
—  Diga, por esmola, diga tudo.
—  Vamos lá, sossegue...
—  Não sossego, diga.
—  Enquanto não sossegar não digo nada. Escute, Deus escreve direito por linhas tortas. Quem sabe o que estaria no futuro?
—  Não entendo; diga.
Em verdade, não se podia ser menos hábil, ou mais atado que eu. Não ousava dizer a coisa, e não fazia mais que aguçar o desejo de a ouvir.
Lalau instou ainda comigo, pegoume nas mãos, beijoumas, e esse gesto fezme mal, muito mal. Erguime, dei dois passos, e voltei dizendo que, não agora, por estar tão fora de si, mas depois lhe contaria tudo, tudo, que era uma coisa grave...
—  Grave? Digame já, já.
E pegouse a mim, que lhe dissesse tudo, jurava não contar nada a ninguém, se era preciso guardar segredo; mas não queria ignorar o que era. Não me dava tempo; se eu abria a boca para adiar, interrompiame que não, que havia de ser logo, logo; e falavame em nome de Deus, de Nossa Senhora, e perguntavame se era assim que dizia ser padre.
—  Promete ouvirme quieta?
—  Prometo, disse ela depressa, ansiosa, pendendome dos olhos.
—  É bem grave o que lhe vou dizer.
—  Mas diga.
Pegueilhe na mão, e leveia para defronte do retrato do finado conselheiro. Era teatral o gesto, mas tinha a vantagem de me poupar palavras; disselhe simplesmente que ali estava alguém que não queria: o pai de ambos. Lalau empalideceu, fechou os olhos e ia a cair; pude sustêla a tempo.
Lalau tinha o sentimento das situações graves. Aquela era excepcional. Não me disse nada, depois da minha revelação, não me fez pergunta nenhuma; apertoume a mão e saiu.
Dois dias depois foi para casa da tia, a pretexto de não sei que negócio de família, mas realmente era uma separação. Fui ali vêla; acheia abatida. A tia faloume em particular; perguntoume se houvera alguma coisa em casa de D. Antônia; a sobrinha, interrogada por ela, respondera que não; quis ir à Casa Velha, mas foi a própria sobrinha que a dissuadiu, ou antes que lhe impôs que não fosse.
—  Não houve nada, foi a sua última palavra. O que há é que é tempo de viver em nossa casa, e não na casa dos outros. Estou moça, preciso de cuidar da minha vida.
D. Mafalda não achava própria esta razão. A sobrinha era tão amiga da Casa Velha, e a família de D. Antônia querialhe tanto, que não se podia explicar daquele modo uma retirada tão repentina. Nunca lhe ouvira o menor projeto a tal respeito. Acresce que, desde que viera, andava triste, muito triste...
Todas essas reflexões eram justas; entretanto, para que ela não chegasse a ir à Casa Velha, disselhe que a razão dada por Lalau, se não era sincera, era em todo caso boa. Pensava muito bem querendo vir para casa; eram pobres; ela devia acostumarse à vida pobre, e não à outra, que era abundante e larga, e podia criarlhe hábitos perigosos.
Nada lhe disse a ela mesma, nem era possível; falamos juntos os três na sala de visitas, que era também a de trabalho. Lalau procurou disfarçar a tristeza, mas a indiferença aparente não chegou a persuadirme; concluí que o amor lhe ficara no coração, a despeito do vínculo de sangue, e tive horror à natureza. Não foi só a natureza. Continuei a aborrecer a memória do homem, causa de tal situação e de tais dores.
Na Casa Velha fui igualmente discreto. D. Antônia não me perguntou o que se passara com elas, nem com o filho, e pela minha parte não lhe disse nada. O que ela me confiou, dias depois, é que a viagem de Félix à Europa era já desnecessária; cuidava agora de casálo; faloume claramente nos seus projetos relativos a Sinhazinha. Pareceralhe a escolha excelente; eu inclineime, aprovando.
Passaramse muitos dias. O meu trabalho estava no fim. Tinha visto e revisto muitos papéis, e tomara muitas notas. O coronel voltou à Corte no meado de setembro; vinha tratar de umas escrituras. Notou a diferença da casa, onde faltava a alegria da moça, e sobrava a tristeza ou alguma coisa análoga do sobrinho. Não lhe disse nada; parece que
D. Antônia também não.
Félix passava uma parte do dia comigo, sempre que eu ali ia; falavame de alguns planos relativamente a indústrias, ou mesmo a lavoura, não me lembra bem; provavelmente, era tudo misturado, nada havia nele ainda definido; lembremonos que já andara com idéias de ser deputado. O que ele queria agora era fazer alguma coisa que o aturdisse, que lhe tirasse a dor do recente desastre. Neste sentido, aprovavalhe tudo.
Pareceume que o tempo ia fazendo algum efeito em ambos. Lalau não ria ainda, nem tinha a mesma conversação de outrora; começava a apaziguarse. Ia ali muita vez, às tardes; ela agradeciame evidentemente a fineza. Não só tinha afeição, como achava na minha pessoa um pedaço das outras afeições, da outra casa e do outro tempo. Demais, erame grata, posto que o destino me tivesse feito portador de más novas, e destruidor de suas mais íntimas esperanças.
A idéia de casála entrou desde logo no meu espírito; e nesse sentido falei à tia, que aprovou tudo, sem adiantar mais nada. Não conhecia o Vitorino, filho do segeiro, e pergunteilhe que tal seria para marido.
—  Muito bom, disseme ela. Rapaz sério, e tem alguma coisa por morte do pai.
—  Tem alguma educação?
—  Tem. O pai até queria fazêlo doutor, mas o rapaz é que não quis; disse que se contentava com outra coisa; parece que está escrevente
de cartório... escrevente não sei como se diz... mentado... paramentado...
—  Juramentado.
—  Isso mesmo.
—  Bem, se puder falar com ela... sem dizer tudo... assim a modo de indagação...
—  Verei; deixe estar.
Dias depois, D. Mafalda deume conta da incumbência: a sobrinha nem queria ouvir falar em casar. Achava o Vitorino muito bom noivo, mas o seu desejo era ficar solteira, trabalhar em costura, para ajudar a tia e não depender de ninguém; mas casar nunca.
Esta conversa trouxeme a idéia de ponderar a D. Antônia que, uma vez que Lalau era filha de seu marido, ficavalhe bem fazer uma pequena doação que a resguardava da miséria. D. Antônia aceitou a lembrança sem hesitar. Estava tão contente com o resultado obtido, que podia fazêlo. Confessoume, porém, que o melhor de tudo seria, feita a doação, passados os tempos, e casado o filho, voltar a menina para a Casa Velha. Tinha grandes saudades dela; não podia viver muito tempo sem a sua companhia. Repeti a última parte a Lalau que a escutou comovida. Creio até que ia a brotarlhe uma lágrima; mas reprimiua depressa, e falou de outra coisa.
Era uma terça feira. Na quarta, devia eu ultimar os meus trabalhos na Casa Velha, e restituir os papéis, quando fiz um achado que transtornou tudo.





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