sábado, 4 de junho de 2016

Machado de Assis - Casa Velha - Capítulo 07


Era na varanda, na manhã seguinte. Quando ali cheguei, dei com D. Antônia só, passeando de um para outro lado; a baronesa recolherase, e os outros tinham saído a cavalo, depois de alguma espera para que eu os visse; mas cheguei tarde; por que é que não fui mais cedo?



Machado de Assis - Casa Velha - Capítulo 07


Era na varanda, na manhã seguinte. Quando ali cheguei, dei com D. Antônia só, passeando de um para outro lado; a baronesa recolherase, e os outros tinham saído a cavalo, depois de alguma espera para que eu os visse; mas cheguei tarde; por que é que não fui mais cedo?
—  Não pude; estive sabendo as más notícias que vieram do Sul.
—  Sim? perguntou ela.
Conteilhe o que havia, acerca da rebelião; mas os olhos dela, despidos de curiosidade, vagavam sem ver, e, logo que o percebi, parei subitamente. Ela, depois de alguma pausa:
—  Ah! então os rebeldes...
Repetiu a palavra, murmurou outras, mas sem poder vinculálas entre si, nem darlhes o calor que só o real interesse possui. Tinha outra rebelião em casa, e, para ela, a crise doméstica valia mais que a pública. É natural, pensei comigo; e tratei de ir aos meus papéis. Ao pedirlhe licença, via olhar para mim, calada, e reterme pelo pulso.
—  Já? disse finalmente.
—  Vou ao trabalho.
D. Antônia hesitou um pouco; depois, resoluta:
—  Ouçame!
Respondi que estava às suas ordens, e esperei.
D. Antônia passou a mão pelos olhos, sacudiu a cabeça, e perguntoume se não suspeitava alguma causa absoluta de impedimento entre o filho e Lalau.
—  Causa absoluta?
—  Sim, murmurou ela, a medo, baixando e erguendo os olhos, como envergonhada.
Confesso que a suspeita de que Lalau era filha dela acudiume ao espírito, mas varria logo por absurda; adverti que ela o diria antes à própria moça do que a nenhum homem, ainda que padre. Não, não era isso. Mas então o que era? Tive outra suspeita, e pedilhe que me dissesse, que me explicasse...
—  Está explicado.
—  Seu marido...?
D. Antônia fez um gesto afirmativo, e desviou os olhos. Tinha a cara que era um lacre. Quis ir para dentro, mas recuou, deu alguns passos até o fim da varanda, voltou, e foi sentarse na cadeira que ficava mais perto, entre duas portas; apoiou os braços nos joelhos, a cabeça nas mãos, e deixouse estar. Eu, espantado, não achava nada que dissesse, nada, coisa nenhuma; olhava para o ladrilho, à toa; e assim ficamos por um longo trato de tempo. Acordounos um moleque, vindo pedir uma chave à senhora, que lhe deu o molho delas, e ficou ainda sentada, mas sem pousar a cabeça nas mãos. A expressão do rosto não era propriamente de tristeza ou de resignação, mas de constrangimento, e pode ser também que de ansiedade; e não fiz logo esse reparo, mas depois, recapitulando as palavras e os gestos. Fosse como fosse, não me passou pela idéia que aquele impedimento moral e canônico podia ser um simples recurso de ocasião.
Caminhei para ela, estendilhe as mãos, ela deume as suas, e apertandolhas, disselhe que não devia ter ajuntado à fatalidade do nascimento o favor das circunstâncias; não devia têlos levado, pelo descuido, ao ponto em que estavam, para agora separálos irremediavelmente. D. Antônia murmurou algumas palavras de explicação: — acanhamento, confiança, esperança, a idéia de casála com outro, a de mandar o filho à Europa... As mãos tremiamlhe um pouco; e, talvez por têlo sentido, puxouas e cruzou os braços.
—  Bem, disselhe eu, agora é separálos.
—  Custame muito, porque eu gosto dela. Eduqueia como filha.
—  É urgente separálos.
—  Aqui é que Vossa Reverendíssima podia prestarme um grande obséquio. Não me atrevo a fazer nada; não sei mesmo o que poderia fazer. Vossa Reverendíssima, que os estima, e creio que me estima também, é que acharia algum arranjo. Meu filho está resolvido a ir por diante; mas a sua intervenção... Posso contar com ela?
—  Tem sido excessiva a minha intervenção. Vim receber um obséquio, e achome no meio de um drama. Era melhor que me tivesse limitado a recolher papéis...
—  Não diga mais nada; acabouse. Demais, um padre não se pode arrepender do benefício que tentou fazer. A intenção era generosa; mas o que lá vai, lá vai. Agora é darnos remédio. Será tão egoísta que me não ajude? Não tenho outra pessoa; o coronel é um estonteado... E depois, por mim só; não faço nada... Ajudeme.
D. Antônia falava baixinho, com medo de que nos ouvissem; chegou a levantarse e ir espiar a uma das portas, que davam para a sala. Não julguei mal da precaução, que era natural; e, quando ela, voltando a mim, parou e interrogoume de novo, respondilhe que precisava equilibrarme primeiro; a revelação atordoarame. Aqui desviou os olhos.
—  Não é sangria desatada, acrescentei. Lalau está fora por alguns dias; pensarei lentamente. Que a ajude? Hei de ser obrigado a isso, agora que a situação mudou. Se não dei causa ao sentimento que os liga, é certo que o aprovei, e estava pronto a santificálo. A senhora foi muito imprudente.
—  Confesso que fui.
—  Vai agora desgraçálos.
D. Antônia fez com a boca um gesto, que podia parecer meio sorriso, e era tãosomente expressão de incredulidade. Traduzido em palavras, quer dizer que não admitia que a separação dos dois pudesse trazerlhes nenhum perpétuo infortúnio. Tendo casado por eleição e acordo dos pais, tendo visto casar assim todas as amigas e parentas, D. Antônia mal concebia que houvesse, ao pé deste costume, algum outro natural e anterior. Cuidava a princípio que a sua vontade bastava a compor as coisas; depois, não logrando mais que baralhálas, cresceulhe naturalmente a irritação, e afinal criou medo; mas, supôs sempre que o efeito da separação não passaria de algumas lágrimas.
—  Amanhã ou depois falaremos, disselhe.
Fui dali aos livros. Ao entrar na sala deles, parei diante do retrato do exministro, e mirei por alguns instantes aquela boca, que me parecera lasciva, desde que a vi pela primeira vez. E disse comigo, olhando para ele:
—  Estás morto. Gozaste e descansas; mas eis aqui os frutos podres da incontinência; e são teus próprios filhos que vão tragálos.
Estava irritado, davame ímpeto de quebrar alguma coisa. Senteime, levanteime, fui à janela e acabei passeando ao longo da sala, com os pensamentos dispersos e confusos. Os livros, arranjados nas estantes, olhavam para mim, e talvez comentavam a minha agitação com palavras de remoque, dizendo uns aos outros que eles eram a paz e a vida, e que eu padecia agora as conseqüências de os haver deixado, para entrar no conflito das coisas. Nem por sombras me acudiu que a revelação de D. Antônia podia não ser verdadeira, tão grave era a coisa e tão austera a pessoa. Não adverti sequer na minha cumplicidade. Em verdade, eu é que proferi as palavras que ela trazia na mente; se me tenho calado, chegaria ela a dizêlas? Pode ser que não; pode ser que lhe faltasse ânimo para mentir. Tocado de malícia, o coração dela achou na minha condescendência um apoio, e falou pelo silêncio. Assim vai a vida humana: um nada basta para complicar tudo.
Meia hora depois, ou mais, ouvi rumor do lado de fora, cavalos que chegavam lentamente: eram os passeadores. Fui à janela. Uma das filhas do coronel vinha na frente com o pai; a outra e Sinhazinha seguiam logo, com o rapaz entre elas. Félix falava a Sinhazinha, e esta ouviame olhando para ele, direitamente, sem biocos, como na varanda; era talvez o cavalo que restituía à riograndense a posse de si mesma e a franqueza das atitudes. Todo entregue a um acontecimento, subordinei a ele os outros, e concluí da familiaridade dos dois que bem podiam vir a amarse. Sinhazinha escutava com atenção, cheia de riso, pescoço teso, segurando as rédeas na mão esquerda, e dando com a ponta do chicotinho, ao de leve, na cabeça do cavalo.
—  Reverendíssimo, bradou parando embaixo da janela o coronel, os farrapos invadiram Santa Catarina, entraram na Laguna, e os legais fugiram. Eu, se fosse o governo, mandava fuzilar a todos estes para escarmento...
Já os pajens estavam ali, à porta, com bancos para as moças, apearamse todos e subiram. Daí a alguns minutos Raimundo e Félix entravamme pela sala, arrastando as esporas. Raimundo creio que ainda trazia
o chicote; não me lembra. Lembrame que disse ali mesmo, agarrandome nos ombros, uma multidão de coisas duras contra Bento Gonçalves, e principalmente contra os ministros, que não prestavam para nada, e deviam sair. O melhor de tudo era logo aclamar o imperador. Dessemlhe cinqüenta homens — vinte e cinco que fossem
— e se ele em duas horas não pusesse o imperador no trono, e os ministros na rua, estava pronto a perder a vida e a alma. Uns lesmas! Tudo levantado, tudo, ao Norte e ao Sul... Agora parece que iam mandar tropas, e falavase no General Andréa para comandálas. Tudo remendos. Sangue novo é o que se precisava... Parola, muita parola.
Bufava o coronel; o sobrinho, para aquietálo, metia alguma palavra, de quando em quando, mas era o mesmo que nada, se não foi pior.
Irritado com as interrupções, bradoulhe que, se o pai fosse vivo, as coisas andariam de outro modo.
—  Aquele não era paz d’alma, disse o coronel apontando para o retrato. Fosse ele vivo! Não era militar, como sabe — continuou olhando para mim —, mas era homem às direitas. Vejame bem aqueles olhos, e digame se ali não há vida e força de vontade... Um pouco velhacos, é certo, acrescentou galhofeiramente.
—  Tio Raimundo! suplicou Félix.
—  Velhacos, repito, não digo velhacos para tratantadas, mas para amores; era maroto com as mulheres — prosseguiu rindo e esquecendo inteiramente a rebelião. Eu, quando Vossa Reverendíssima mudar de cara, e trouxer outra mais alegre, hei de contarlhe algumas aventuras dele... Veja aqueles olhos! E não imagina como era gamenho, requebrado...
Félix saiu neste ponto; eu fui sentarme à escrivaninha; o coronel não continuou o assunto, e foi despirse. Não me procurou mais até à hora do jantar; naturalmente porque o sobrinho o impediu de vir perturbarme na pesquisa dos papéis, como se eu tivesse papéis na cabeça. Marotos com as mulheres! Esta palavra retiniu ali por muito tempo. Maroto com as mulheres! Tudo se me afigurava claro e evidente.








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